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O que me foi impresso no coração pode sim ser apagado se eu quiser bastante. A felicidade resta na resignação do que sinto. Ainda sinto que os outros lugares me ameaçam, é verdade, mas não escondo mais. Não me confundo num furacão de confusão, de angustia, de rejeitar o que me é natural. Os outros lugares me ameaçam, mas eu não tenho medo. Quando um outro lugar for melhor, será, e eu aceito. Não sem dor, não sem saudade, mas sem medo.

Eu queria escrever tantas coisas, há tanto dentro de mim a ser libertado, mas eu não encontro os caminhos. Eu procuro sempre evitar isso ou aquilo e, evitando, não consigo ligar os pontos. Coloco tantos obstáculos que eles, por si só, acabam formando uma trilha. A estrada que eu não quero pegar. Só sei daquilo que não quero: não quero querer demais, depender demais, precisar demais. Quero o que restar disso. Quero não me desesperar como eu me desespero, penso tanto que fico quente. O coração ferve e me queima de dentro pra fora. Quem me queima sou eu e não o outro e não há dúvida nem contradição maior nisso. 

E a verdade, a verdade verdadeira, é que dói a ilusão. Fico tão feliz de ter percebido isso. Dói uma ideia. Não é a realidade. A realidade é que você existe e você vem e vai a outros lugares e, como me é dito desde criança que os outros lugares me ameaçam, dói. Mas não dói. Se você for e não voltar, não dói. A Ideia que dói, o externo que dói, o que me foi impresso como um código de barras no coração.

E, ainda bem, o que me foi impresso pode ser apagado se eu quiser bastante.

“ Let us not abandomn ourselves to please others. ”
“ Toda história do mundo não é mais que um livro de imagens refletindo o mais violento e mais cego dos desejos humanos: o desejo de esquecer. ”
Hermann Hesse in “Viagem pelo Oriente”

jupig:

Emília,

As coisas que você diz ao mundo falam diretamente a mim. As palavras saem da sua boca e entram no meu corpo, tão doente, tão fraco, como que para curá-lo.  Emília, nunca se cale. Emília, eu estive calada por tanto tempo, com medo de dizer e ninguém entender, com medo de escrever e tudo soar mal. Eu encontrei um menino a quem dizia coisas, mas ele já não existe mais. Não me sinto mal como deveria, me sinto ainda inteira, mas com saudades. Queria achar alguém no mundo a quem bastasse me fazer companhia, que não me quisesse devorar. Emília, eu magoo todo mundo com o meu jeito. Amo como quem corre; sempre ofegante, incomodada. Não sei de nada, não amo ninguém. Queria saber da onde veio tanta água, de onde veio esse vômito de água que me inunda essa noite. Nada mais que eu digo faz sentido. Não é porque melhorei que não tenho noites tristes.

Julia

“ We accept the love we think we deserve ”
Stephen Chbosky in The Perks Of Being a Wallflower 

but since it falls unto my lot
that I should rise and you should not
I’ll gently rise and I’ll softly call
good night and joy be with you all

i can’t make you love me if you don’t

you can’t make your heart feel something that it won’t

jupig:

às vezes, sinto que meu coração bate fora da pele; vejo minhas dores para fora de mim, projeto tudo numa fachada de prédio, como se fosse um filme. o mundo, curioso, senta e assiste quieto. vou ficando cada vez mais miúda, cada vez mais branca, cada vez mais perto de deixar de existir. meu corpo vai adoecendo conforme o filme passa, conforme o coração bate fora do lugar. eu quero um pano quente pra cobrir meu coração. não quero mais ser um espetáculo, não quero dizer a todos como sou de vidro, um vidrinho fraco e sonso. não sei que grande graça todo mundo viu em mim para me cercarem desse jeito, para enfiarem as mãos em mim desse jeito. quero ficar só, chateando apenas a mim mesma com as minhas aflições, não quero que ninguém chegue mais perto do que isso, não quero segurar a mão de mais ninguém, quero que o filme acabe e todos vão embora.

gostar dos outros é um trabalho imenso que eu não nunca sei fazer direito. quando eu menos espero, começo a cuspir sangue de novo, sem perceber. 

algumas coisas nunca mudam e, mesmo que eu melhore com o tempo, de madrugada, o amor volta a me parecer o que sempre foi: cocô de rato moído.